O termo Artes Marciais corresponde a uma atividade humana relacionada com o treinamento para guerra. Podemos identificar este sentido estrito ao dissecarmos a composição do termo arte, que apesar de corriqueiramente ser relacionado com a atividade artística, também pode significar arte de oficio oriunda do artesanato (e da formação artesanal) da Europa medieval (RUGIU, 1998). Considerando que a “arte de ofício” esteja atrelada à habilidade ou técnica para a realização de determinado ofício, a interpretação mais adequada para a avaliação do termo é de arte no sentido artesanal e não artístico. Seguido pelo termo marcial que é relativo a Marte, deus romano da guerra. Portanto a definição mais simples do termo seria de treinamento militar para obtenção de habilidades ou técnicas para a guerra.

Obviamente, no contexto da estrutura social atual, tal termo adquiriu conotações diferentes causadas tanto pela forma coloquial com que é utilizado por falta de definições padronizadas, quanto pela espetacularização dada pelo cinema e outros veículos de construção do imaginário social.

Para iniciar a desconstrução do senso comum, e em busca do entendimento do termo de forma mais precisa, Reid e Croucher (2010, p.12) indicam que arte marcial:

Trata-se evidentemente de um termo ocidental que deriva do termo latino do planeta Marte, o deus romano da guerra. Foi escrito pela primeira vez em língua inglesa no ano de 1357, por Geoffrey Chaucer, que se referiu ao “tourney Marcial” da época medieval. Em 1430, o termo já era usado em referência ao treinamento para guerra, aos próprios atos de guerra (…).

É possível considerar que o termo arte marcial na idade média, se relacionou ao contexto sociocultural da época, com significado de uma arte de oficio. Também vale a pena ressaltar que, na antiguidade, o deus Marte não era patrono das lutas gregas – que era o deus Mercúrio – e nem da estratégia militar – que era a deusa Minerva – outrossim ele era o deus da guerra selvagem e sangrenta, da carnificina. Esta informação é um pouco conflitante em relação ao esperado por dois motivos:
– Na idade média, a escolha de Marte e não Mercúrio (Hermes) como patrono das lutas, denota a preocupação em relação à formação militar em detrimento da ação relacionada a jogos com regras limitantes, que na modernidade tornou-se esporte;
– Na antiguidade, Minerva, e não Marte, era a deusa patronesse das técnicas refinadas e estratégia de guerra, que representaria um olhar mais técnico e refinado do combate e que representaria, em parte, as lutas organizadas tecnicamente que geraram as esportivas da modernidade. Assim, há o indício de que ao apropriar-se do nome Artes Marciais, a escolha teve aparente conotação machista, relacionado a época em que se originou, mais do que de uma identificação coerente.

Desta forma indica-se, então, que Artes Marciais é um termo usualmente utilizado pela herança histórica do mundo ocidental, mas passível de discussão e reflexão sobre sua utilização na sociedade atual, da mesma forma que países orientais fizeram no decorrer de seu desenvolvimento.

Em relação a identificação da terminologia Artes Marciais relacionada à denominação das lutas orientais, mais especificamente do Japão, os Linguistas Ratti e Westbrook (2006, p. 24) apontam como semanticamente equivalente o termo bujutsu, que significa técnica militar (bu = militar; jutsu = técnica). O importante é ressaltar que os mesmos autores apresentam que bujutsu parece estar particularmente relacionado à natureza técnica e funcionalidade estratégica destas artes. Os autores ressaltam que:

(…) o Bujutsu, queremos destacar, está especialmente relacionado com os aspectos práticos, técnicos e estratégicos das artes indicadas com ideograma da técnica. Quando estas especializações (modalidades) são entendidas como disciplinas com uma finalidade ou propósito de uma natureza mais educativa ou ética, a “técnica” converte-se em “caminho” (do), que significa a “senda” em direção a uma realização mais espiritual do que puramente prática.

De forma análoga, o Professor Manoel José Gomes Tubino, renomado pesquisador e administrador do esporte brasileiro, já se preocupava com a contemporaneidade do termo e, apresentava argumentação que coaduna com o que tem sido observado que as artes marciais, de que “Atualmente, têm um largo emprego como Defesa Pessoal, Esporte, meio para Aptidão Física e saúde, meio de Educação etc.” (TUBINO, TUBINO e GARRIDO, 2007, p. 164). Outros autores como Mocarzel e Murad (2012, p.91), refletem que tal atitude não influencia o respeito às modalidades pois:

É de se ressaltar, ponderando as premissas anteriores, que hoje muitas “artes marciais” são um conjunto de ferramentas socioeducativas que contribuem para o desenvolvimento físico e na estruturação do comportamento e do caráter de seus praticantes, independentemente do local e/ou cultura, respeitando preceitos ético-filosóficos durante sua prática.

As informações dadas pelos autores anteriores corroboram a interpretação de que Artes Marciais se referem a atividades práticas de técnicas artesanais e não artísticas, e que o termo correspondente em japonês não se adequa com a atividade educacional ou ética, ficando a cargo da preparação militar, assim necessitando de nova definição linguística para compreender tais mudanças. Concordando com os autores, identifica-se:

Marcial está, entretanto, etimologicamente relacionado com Marte (…), e consequentemente com guerra, guerreiros, atividades militares e soldados. Portanto, essa suposição pode nos levar também a classificar as especializações do combate (modalidades) como artes da guerra, associando-as, consequentemente mais como campo de batalha e com as intervenções massivas de homens e material do que confrontos individuais. (RATTI e WESTBROOK, 2006, p. 26).

Neste foco de discussão, Tubino (2010 p.45) apresenta e define que “Esportes das Artes Marciais são aqueles derivados das artes militares ou marciais da Ásia (exemplos: Jiu-Jitsu, Judô, Karatê etc.). Assim, o vínculo da atividade com a modernidade através do esporte, é enaltecido. Em estudos variados, outros autores acadêmicos apresentam este olhar esportivo sobre as ditas artes marciais. Cesana (2011), em sua Tese de doutoramento, estudando práticas integrativas orientais fundamenta que os praticantes e instrutores de modalidades de judô, kung-fu, capoeira, caratê, boxe e jiu-jitsu identificam e definem suas práticas com o esporte. Franchini e Del Vecchio (2011) apresentam um estudo sobre Modalidades Esportivas de Combate, diferenciando de lutas e artes marciais por conterem características esportivas como: quantificação; superação; burocratização e institucionalização, via federações e organizações; secularização; especialização e racionalização. Por fim, em outro estudo interessante, Ferreira, Lise e Capraro (2016, p. 15) apresentam que:

(…) as artes marciais tradicionais, em especial aquelas de origem orientais (India, Japão, China, Tailândia, etc) possuíam tanto na sua etimologia quanto em sua prática um caráter beligerante ou religioso, na qual a intenção era matar ou inutilizar seu adversário (inimigo), afastando-se assim da lógica esportiva moderna. Neste sentido, considera-se como esporte de combate o judô, o jiu-jitsu, o caratê, o taekowdo, o kung fu entre outros. Tais práticas há muito tempo perderam seu caráter marcial (alusivo à guerra e à morte) e se esportivizaram a partir de um processo de ocidentalização, cujas principais adaptações foram: as regulamentações escritas, o controle dos níveis de violência permitidos em tais disputas, as condições de igualdade entre os oponentes (divisão por categorias de peso, faixas, etc), entre outras.

Em conclusão, resta fundamentado que as Artes Marciais devem ser entendidas por atividades de formação militar e devem ser enquadradas no âmbito das competências (legislativas, profissionais e cíveis) a que se destina. Apesar de seu uso pelo “senso-comum”, não deve se confundir com a atividade que de fato emergiu durante a sociedade contemporânea, que a vincula ao esporte. Assim, do ponto de vista da atualidade, Esportes de Combate e Modalidades de Combate são termos mais adequados para definir os esportes derivados de artes marciais (o judô, o caratê, o kung fu, o kendo, o kempo, a capoeira esportiva, o jiu-jitsu, o taekwondo, o boxe, as lutas olímpicas e greco-romana, o kickboxing, o muay tai, o sumô, e inúmeras outras) na atualidade, sem causar confusões anacrônicas e sócio geográficas. A insistência na utilização de termos inadequados por sua usualidade tradicional, não permite perceber equívocos em sua criação, nem na interpretação de seus conceitos, tornando-o autoexplicativo. Em outras palavras, em muitos casos dão-se interpretações para a terminologia Artes Marciais ajustando-se as necessidades e interesses momentâneos, sem observar as incoerências apontadas em estudos que foram citados, de que o termo carrega, destacando-se arte de ofício trocada por arte estética e a relação de escolha entre Marte (carnificina) e Minerva (estratégia).

As seguintes referências bibliográficas serviram de suporte ao presente parecer:

CESANA, J. Práticas corporais alternativas e educação física: entre a formação e a intervenção. Tese de Doutorado – Faculdade de Educação Física/UNICAMP –Campinas, SP: 2011.

FERREIRA, F. D. C.; LISE, R. S.; CAPRARO, A. M. Fontes para a história dos esportes de combate. In: PIMENTA, T; DRIGO, A. J. (Orgs) Contribuição das ciências humanas nas artes marciais: formação profissional, história e sociologia. São Paulo: Oficina do Livro, 2016.

FRANCHINI, E; Del VECCHIO, F.B. Estudos em modalidades esportivas de combate: estado da arte. Rev. bras. Educ. Fís. Esporte, São Paulo, v.25, p.67-81, dez. 2011 N. esp. 67

MOCARZEL, R.C.S.; MURAD, M. Sobre o homo diciplinatus: uma visão sócio antropológica do artista marcial. Corpus et Scientia, Rio de Janeiro, v.8, n.2, p.87-98, out. 2012.

RATTI, O.; WESTBROOK, A. O segredo dos samurais: as artes marciais do Japão Feudal. (Trad: Cristina Mendes Rodríguez). São Paulo: Madras, 2006.

REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. (Trad: Marcelo Brandão Cipolla). 11ª ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2010.

RUGIU, A. S. Nostalgia do mestre artesão. Campinas, SP: Editores Associados, 1998.

TUBINO, M.J.G.; TUBINO, F.M.; GARRIDO, F.A.C. Dicionário Enciclopédico Tubino do Esporte. Rio de Janeiro: SENAC, 2007.

TUBINO, M. J. G. Estudos brasileiros sobre o esporte: ênfase no esporte-educação / Manoel Tubino. — Maringá: Eduem, 2010. 163 p.

Sem mais para o momento, reitero votos de estima e consideração.

Att,

PROF. DR. ALEXANDRE JANOTTA DRIGO
000839-G/SP

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