Presidente do CREF4/SP lança um olhar para o futuro a partir das consequências da pandemia visando a ampliar o reconhecimento do Profissional de Educação Física pelo poder público e pela sociedade

Ponto de Vista
25 de agosto de 2020
Por PAULO PINTO I Fotos BUDOPRESS
Curitiba – PR

Buscando lançar um olhar para o futuro, com base no impacto da pandemia no posicionamento do Profissional de Educação Física perante a sociedade, entrevistamos o professor Nelson Leme da Silva Junior, um dirigente que tem a responsabilidade de gerir uma entidade com quase 190 mil profissionais registrados no Estado de São Paulo.

É dito e sabido que as crises revelam oportunidades únicas e, por maior que tenha sido o prejuízo causado pela pandemia e pelo isolamento social, não temos como negar que vivemos esta realidade. Por isso, temos de tirar proveito de todas as lições aprendidas e reconhecer que muitas inovações surgidas neste período vieram para ficar, desenhando um pequeno esboço da nova realidade.

Em breve, poderemos dimensionar o estrago causado pelo isolamento social que fomentou o surgimento de inúmeras patologias e enfermidades na população idosa, jovem e adulta. A impossibilidade de os profissionais de Educação Física atenderem o público em geral certamente colaborou significativamente no crescimento de enfermidades tanto de patologias físicas, quanto cognitivas e psicológicas que deverão repercutir na população mundial nos próximos anos.

Nesta entrevista, lançamos um olhar positivo, fundamentado nas reformas e transformações impostas a todos os segmentos da sociedade para mostrar que poderemos sair desta situação ainda mais fortalecidos.

Inovações e protagonismo

Alguns municípios do Rio Grande do Sul aprovaram projetos de lei que incluem a Educação Física no rol dos serviços essenciais e o dirigente do CREF4/SP entende que, após o período de isolamento social, a pandemia será um argumento no processo de elevar o status do Profissional de Educação Física, consolidando sua importância perante a saúde pública.

“Embora a pandemia tenha sido acachapante para a categoria, tenho absoluta convicção de que daremos a volta por cima e atingiremos maiores objetivos. A sociedade começou a compreender que somos profissionais da área da saúde, indispensáveis à promoção da saúde e do bem-estar. Somos a única categoria que, de fato, promove a saúde da população em geral. As outras profissões cuidam de pacientes com patologias especificadas em procedimentos de reabilitação, situação em que a Educação Física também pode ser inserida por meio do exercício físico especializado. Diariamente, recebo relatos de pessoas que deixaram de praticar atividade física orientada e sentiram consequências negativas, corporais e mentais, isso comprova que a atividade física bem orientada anula essas consequências negativas e valoriza ainda mais o Profissional de Educação Física.”

Exibindo grande preocupação pelo momento delicado, mas com sentimento de otimismo, Nelson Leme expôs de que forma esta mudança de status atenderia aos consumidores no sentido de aumentar a qualidade do atendimento oferecido.

“Acredito que a pandemia despertou no Profissional de Educação Física um olhar mais voltado para a saúde física e mental da população e principalmente dos seus clientes. A categoria tem aproveitado esse tempo de paralisação para qualificar-se ainda mais e os praticantes sentirão essa nova visão que a pandemia trouxe. Estamos aptos, preparados e qualificados para tratar, com nosso conhecimento científico, as consequências físicas e mentais que a pandemia trouxe para a sociedade. Reforço que, mais do que nunca, a área de Educação Física tem aceito o grande desafio da qualificação para suprir as necessidades e expectativas que o momento exige: ser o melhor profissional para cuidar de seus clientes e alunos em tempos de pandemia.”

Recentemente, o professor Ernani Contursi, vice-presidente do CREF1 RJ/ES, esteve em Brasília para solicitar a inserção das academias como unidades de saúde junto ao Ministério da Saúde e a proposta foi muito bem-vista pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, e o dirigente do CREF4/SP elogiou a atitude.

“Foi uma iniciativa brilhante. Ainda que a sociedade e as normas do Ministério da Saúde nos reconheçam como profissão da área da saúde, as autoridades ainda se mostram resistentes em classificar a atividade física orientada como instrumento de prevenção e recuperação das comorbidades. Esse trabalho de aproximação do sistema CONFEF/CREFs das autoridades é de fundamental importância e, em nome do CREF4/SP, parabenizo o CREF1/RJ-ES.”

“Entendo que empreender é ter sucesso junto àqueles que atuam com você, mas só conseguiremos requalificar a Educação Física perante o poder público e à sociedade como um todo exercendo protagonismo, ou seja, quando nos projetarmos verdadeiramente no cenário em que atuamos, expondo nossas metas e propostas de forma clara e objetiva”, enfatizou o dirigente.

Nelson Leme entende que, se a Educação Física tornar-se diretamente ligada ao Ministério da Saúde, o impacto positivo sobre a classe será gigantesco.

“É importante mencionar que nossa categoria é dividida entre os licenciados, que atuam nas escolas, e os bacharéis, com atuação nas academias, clubes, escolas de esportes, ou seja, em ambientes de atividade física/exercício físico para a sociedade e alto rendimento. Para os bacharéis, a vinculação ao Ministério da Saúde trará maior integração com as demais áreas relacionadas, abrindo novos horizontes de trabalho na recuperação e na prevenção de diversas patologias. Não podemos esquecer que o Profissional de Educação Física licenciado integra a área da saúde e que é na escola que temos a única política pública voltada para o atendimento da criança no esporte e na atividade física. É justamente nesse ambiente que podemos conscientizar a criança e o jovem da importância da atividade física na prevenção da saúde durante toda sua vida. O licenciado também terá benefícios, podendo ser reconhecido socialmente como agente de saúde inicial dentro do ambiente escolar, desta forma, pode ser um profissional importante na detecção de patologias e encaminhamento precoce para as unidades de saúde, pois sabe-se que várias doenças, quando tratadas a tempo, tornarão a criança e o adulto muito mais saudáveis”, explicou o presidente do CREF4/SP.

O dirigente paulista defende que o Profissional de Educação Física está devidamente qualificado e presta atendimento de qualidade e que a população será a maior beneficiada com a mudança. Segundo esse raciocínio, o consumidor terá melhor qualidade de vida e a sociedade experimentará uma diminuição significativa nas doenças. “Já está cientificamente comprovado que a atividade física orientada contribuiu no aumento da resistência dos indivíduos”, sublinhou.

Para o dirigente, está claro que o isolamento social provocará uma série de mudanças no padrão de conduta dos consumidores e frequentadores de academias. As práticas, que antes eram relacionadas à estética e beleza física, passarão a ser compreendidas definitivamente como atividades de promoção da saúde.

“Com o isolamento, até os praticantes que buscavam a atividade física por estética puderam reconhecer a importância dela para a saúde”, prosseguiu Nelson Leme. “Mais do que se queixar da perda da beleza de seus corpos neste período, as pessoas observaram as limitações que a falta da atividade física orientada faz no dia a dia.”

O dirigente considera absurdas e equivocadas as restrições impostas pelos governos estaduais e municipais. “A categoria teve de reinventar-se”, argumentou. “Alguns CREFs implantaram as teleaulas, que se mostraram muito efetivas nesse período, e entendo que, em casos específicos, sejam uma modalidade que veio para ficar. Mas, atualmente, os profissionais têm maior consciência da necessidade de sua atuação para o bem-estar físico e mental da sociedade. Se antes muitos consumidores se dedicavam a cultivar corpos esbeltos, penso que agora manterão essa atividade, mas com um olhar muito mais voltado para a saúde.”

“Lógico que a pandemia não foi um evento positivo, principalmente pensando no número de óbitos ocorridos e, nesse sentido, prestamos condolências a todas as famílias que passaram por isso. No entanto, temos de buscar forças, tirar lições desta catástrofe e antever de que maneira ela se refletirá de forma positiva em nossa categoria.”

Nelson Leme frisou que muitos lugares ainda proíbem a abertura das academias, clubes e escolas de desportos e que, portanto, ainda é preciso lutar para mostrar que a categoria é essencial. “É imperativo evidenciar que o poder público errou e que o papel exercido pelo Profissional de Educação Física é de vital importância para a saúde física e mental da sociedade.”

“Colocaram-nos numa caixa que acabou ficando muito pequena e não cabemos mais dentro dela. Além disso, são quase seis meses de população trancafiada, isolada e, como já disse antes, os reflexos dessa experiência nefasta já estão sendo refletidos em bebês, criança, jovens, adultos e idosos que foram privados de coisas básicas como tomar sol, caminhar no parque e respirar ar puro, afetando significativamente nossos sentidos cognitivos e comprometendo nossa saúde física e mental. As pessoas precisam voltar para os clubes, escolas, academias e retomar suas vidas e tudo aquilo que faziam no dia a dia”, desabafou o presidente do CREF4/SP.

“Nós, Profissionais de Educação Física, precisamos exercer nossa função com um olhar muito mais amplo e torcer para que aqueles que comandam ou venham a comandar o sistema CONFEF/CREFs atentem para os novos tempos e consolidem a transformação que toda a classe reivindica”, concluiu o dirigente.