No marco do Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil promoveu nesta segunda-feira (3) um amplo debate entre especialistas e convidados sobre depressão. Neste ano, o lema da campanha mundial é “Depressão: vamos conversar”.

Em participação por vídeo, a diretora da OPAS/OMS, Carissa F. Etienne, lembrou que a depressão não discrimina e pode afetar pessoas de todas as idades, raças e origens. “A depressão afeta não só você, mas os que estão à sua volta: sua família, seus amigos e colegas. Afeta comunidades e sociedades e tem um alto custo social e econômico. Devido ao estigma associado à depressão, poucos querem falar sobre ela.”

Mesmo ainda sendo considerada um tabu na sociedade, justamente pelo estigma que a acompanha, até a depressão mais grave pode ser superada com tratamento apropriado, lembrou Etienne. “O primeiro passo para receber tratamento é falar. Se você conhece alguém com depressão, escute o que ela tem a dizer. Se você sofre de depressão, dê o primeiro passo hoje. Fale com alguém.” Para a diretora da OPAS/OMS, é tempo de romper o silêncio e acabar com os preconceitos que cercam esse transtorno mental. “Toda pessoa com depressão merece apoio, respeito e bons cuidados”, ressaltou.

Mónica Padilla, Representante substituta da OPAS/OMS no Brasil, afirmou que a falta de apoio às pessoas que vivem com transtornos mentais, somado ao medo e ao estigma, impede muitas pessoas de terem o tratamento que necessitam para uma vida saudável e produtiva. “É preciso gerar condições para que se possa falar de depressão nos diversos ambientes da vida, no trabalho, na família, em relação às características diferentes para os idosos, para os jovens, homens e mulheres. Enfim, precisamos falar da depressão para dar voz às pessoas que enfrentam esse problema”, defendeu.

Em nível mundial, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão. Nas Américas, o número de pessoas afetadas é de cerca de 50 milhões. “Temos que ser mais acolhedores com pessoas com sintomas de depressão”, atentou Roberto Del Águila, coordenador da Unidade Técnica de Determinantes Sociais e Riscos para a Saúde, Doenças Crônicas Não-Transmissíveis e Saúde Mental da OPAS/OMS.

Segundo Águilla, embora muitas pessoas com mais de 60 anos sofram de depressão, o transtorno mental pode ter início ainda na infância e adolescência. “O problema com a depressão durante a adolescência é que muitas vezes ela desencadeia o consumo de álcool e outras drogas, e também a violência. Não temos que buscar entender o alcoolismo e adicção, mas compreender a depressão, que leva ao uso dessas substâncias.”

Thereza de Lamare, diretora do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas do Ministério da Saúde, apresentou um panorama da depressão no Brasil. “A Pesquisa Nacional de Saúde, publicada em 2013, traz alguns aspectos importantes sobre as doenças não-transmissíveis. A depressão é uma delas. São 11 milhões de brasileiros com esse transtorno, o que nos chamou muito a atenção”, afirmou.

Por sua vez, Cinthia Lociks, coordenadora geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, observou que as mulheres são as mais afetadas e que essa prevalência pode ser explicada pela falta de diagnóstico na população masculina. “Os homens têm uma resistência maior a buscar serviços de saúde. Talvez isso possa explicar a diferença de incidência da depressão entre mulheres e homens”, alegou.

Depressão e grupos específicos

A relação entre a depressão e o uso de álcool e outras drogas foi o tema da apresentação de Flávia Fernando, psiquiatra e doutoranda em psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). “Rejeitamos aquele que abusa do álcool, rejeitamos ainda mais os usuários de drogas ilícitas. Existe a produção do estigma, que é uma marca que atravessa nosso modo de ver e de diminuir o outro”, afirmou. Para a médica, é preciso enxergar a verdadeira dimensão do sofrimento daqueles que usam ou abusam de drogas lícitas e ilícitas e entender “ao que a droga serve, qual a função, nessa singularidade, que a droga ocupa”.

Jaqueline de Jesus, professora e pesquisadora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), abordou a relação entre depressão e raça/cor. “Ser negra ou negro no Brasil, em função do racismo, significa ter problemas de saúde mental constantes”, assinalou. A depressão, segundo a docente, é um dos principais efeitos patogênicos do racismo para a população negra do país, juntamente com distúrbios cardiovasculares, imunodeficiências, diabetes e outras enfermidades. Para Jaqueline, essa realidade mudará apenas quando ações afirmativas eficazes forem elaboradas para combater o racismo e promover a saúde da população negra de forma equitativa.

Lyah Côrrea, psicóloga e ativista, falou sobre saúde mental em relação à população transexual. “As depressões podem refletir os impactos e dinâmicas sobre o estigma social que as identidades trans causam. Falar sobre isso é visibilizar um grupo populacional que histórica e culturalmente não existia. Ou existia, mas na ordem patológica, da marginalidade, da criminalidade. Infelizmente, é assim que as trangeneridades são debatidas”, revelou. Ela também reforçou que o suicídio entre pessoas trans muitas vezes é uma forma de cessar o sofrimento do processo de negação existencial do ponto de vista do outro. “Reivindicamos a despatologização das identidades trans, queremos deixar de ser vistas e vistos como doentes”.

A prevalência da depressão em comunidades indígenas também foi levantada no debate por Oraide Siqueira, psicóloga do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Manaus. Na área em que a profissional atende, o transtorno mental atinge pessoas com idade entre 20 e 71 anos, sendo as mulheres as mais acometidas. “O que vai ser da comunidade?” e “O que vai ser do futuro do indígena?” estão entre as principais queixas ouvidas por Oraide. “Muitas comunidades já não conseguem mais passar seus valores culturais. Há também a questão do álcool e outras drogas. Quanto mais próximos das cidades, mais problemas os indígenas acabam tendo”, finaliza.

Por: OPA/OMS Brasil.

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